Destaque

2º Domingo da Quaresma, Ano A.

Informações básicas:
– A Palavra se manifesta no Deserto Quaresmal. – Oração –  A Palavra purifica o olhar da nossa fé para ver a Glória. – Leituras: Gn 12, 1-4; Sl 32 (33); 2 Tm 1, 8-10; Ev Mt 17, 1-9.

O seu rosto brilhou como o sol.

Acompanhando o percurso litúrgico quaresmal, vimos no domingo passado que Jesus teve de escolher o estilo de sua Missão Messiânica. Escolhendo o estilo da obediência a Deus, o estilo que a Palavra de Deus (as profecias acerca do Messias) havia revelado, com fidelidade filial. Hoje, no episódio da transfiguração são os discípulos que devem escolher seguir o estilo de Jesus.

Após o Anúncio da Paixão (cf. Mt. 16, 21-27), os discípulos se encontram tristes e abatidos. Jesus escolhe três deles (Pedro, Tiago e João) e os conduz a um alto monte e lhes mostra o seu rosto divino. Eles próprios verão o rosto desfigurado de Jesus em outro monte, o Jardim do Getsemani (cf. Mt. 26, 36ss), mas agora o veem transfigurado na glória do Monte (Tabor). Por um instante os discípulos contemplam a natureza divina de Jesus, veem sua glória, a que tinha no Principio, quando estava no seio do Pai (cf. Jo. 1, 1) e que terá de novo, após a Ressurreição. Esta consciência da glória de Cristo deve ajudar os discípulos a aceitarem a dolorosa situação que terão que enfrentar.

trasfigurazione_2“Apareceram-lhes Moisés e Elias”, a Lei e os profetas dão testemunho da glória do Filho de Deus. E diante de tamanha visão, os discípulos ficam estupefatos, a ponto de Pedro querer fixar sua morada ali, naquele lugar. Mas “uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra”. A figura da nuvem na Escritura simboliza presença e proteção divina, como a Shekhinah (em hebraico: שכינה) de Deus que acompanhava o Povo em marcha no deserto (cf. Ex 23, 20-21). E da nuvem fez-se ouvir a voz do Pai, assim como no Batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado”, mas agora com um acréscimo imperativo: “Escutai-O!” (v.5). Isto é, deveis confiar Nele! Mesmo se a proposta Dele não vos parecer boa, confiai!

Se o tempo da Quaresma é ocasião de redescoberta do nosso batismo, da beleza de ser cristão, queremos novamente escolher seguir Jesus, imitando o seu estilo de vida, que gera vida em nós.

Vemos como figura exemplar a vida e a vocação de Abraão, na primeira leitura. No domingo passado, vimos como Adão foi desobediente a Deus. Hoje, temos a obediência de Abraão, que escolhe a promessa de Deus. Ele se confia ao Senhor e parte da sua terra para onde Deus lhe mostrara (cf. Gn. 12,1). Há uma passagem do “errar” de Adão, ao “errar” de Abraão. Este primeiro erra, porque escolhe o pecado. Já Abraão, erra, isto é, se torna errante, nômade, sem moradia em nome da Promessa do Senhor. E por causa da sua fé, todos os povos da terra são abençoados nele (cf. Gn. 12, 3).  O Patriarca Abraão é prefiguração Daquele que deveria vir ao mundo, Jesus Cristo, nosso Salvador.

Em suma, diante do medo ou desânimo nas dificuldades da vida, não desanimemos! Com o salmista no salmo 32, peçamos ao Senhor que envie sobre nós a Sua graça, sem essa, não conseguimos prosseguir no seguimento de Jesus.

Fonte exegética:

  1. Don Claudio Doglio

1º Domingo da Quaresma, Ano A.

Informações básicas:
– O Espírito nos leva ao Deserto Quaresmal.
– Oração –  Conhecer Jesus Cristo e responder ao seu amor por uma vida santa.- Leituras: Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 50,3-4.5-6a.12-13.14.17 (R.Cf.3a); Rm 5,12-19; Mt 4,1-11.

O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

A cada ano, o Caminho quaresmal nos convida a tomar consciência do nosso Batismo. Na Antiguidade, os Padres da Igreja organizavam este tempo de 40 dias para a preparação dos Catecúmenos, em vista do Batismo. Esses são os que fazem o Caminho Catecumenal, ouvem a Palavra de Deus e aderiram ao Evangelho de Cristo. E na noite de Páscoa são feitos cristãos, através do Batismo.

É na Quaresma que todos os batizados são chamados a valorizar a Graça recebida: somos batizados, somos imersos em Cristo! As leituras propostas para a Quaresma nos auxiliam a redescobrir a beleza de sermos cristãos, batizados na morte e ressurreição de Jesus, isto é, vivemos plenamente como filhos e filhas de Deus em Jesus.

as-tentacoes-no-desertoO primeiro domingo é dedicado ao tema da provação ou tentação. Encontramos Jesus logo após o seu Batismo, e no início de sua vida pública é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto. Repare que não é o Diabo que conduz Jesus ao deserto, mas o Espírito (cf. Mt. 4, 1). Foi o Pai quem permitiu a  provação do Seu Filho. Também nós, como filhos de Deus, somos conduzidos a um deserto. Mas olhando a vida de nosso Salvador, Ele que tem a plenitude no Espírito Santo (cf. Mt. 3,16) possui a Força necessária para vencer qualquer provação. Cada um de nós deve ter consciência de que possuímos, assim como Jesus, a Força de Deus em nós. Pois somos habitados por Deus ( cf.I Cor. 6, 19).

Diante disso, poderíamos nos perguntar: será que o deserto é necessário? Sim, o deserto é necessário. Se todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus (Rm. 8,28), ir para o deserto é algo bom, é o lugar de encontro com Deus. Jesus foi para lá antes de iniciar sua vida pública. Neste tempo, Ele ficou em oração e comunhão com o Pai, preparando-se para a grande obra que viria a ser feita. Lembremos, portanto, de consultar o Pai antes de qualquer empreitada, seja ela grande ou pequena. O Espírito Santo impeliu Jesus a um lugar onde ele pudesse ficar em contato maior com Deus Pai. Assim Ele impelirá cada um dos seus filhos, os quais são habitados por Ele, a buscá-lo cada vez mais. E às vezes isto significa que o Pai poderá colocá-lo em situações difíceis. Mas junto com a provação, ele dá também os meios de suportá-la e de sair dela (cf.1 Cor. 10,13).

Em sua provação, Jesus representa toda a Humanidade. Pois consistem nas mesmas tentações que passamos ou passaremos durante a nossa vida. São elas:

  • O PRAZER: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”.
  •  O PODER/DOMÍNIO:  “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.
  • E O TER: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”.

Percebemos grande astúcia do Diabo, quando utiliza a própria Escritura como instrumento de tentação. E Jesus, por sua vez, rebate com uma frase do Deuteronômio – o Livro da Lei/Aliança de Deus, cada uma das tentações. Ele as venceu não se valendo de sua condição divina, mas apenas por meio da sua entrega a Deus e, se apegando a oração e o jejum. São simples armas que o Senhor quer que utilizemos neste tempo forte de Conversão que chamamos de QUARESMA.

Precisamos trazer para a nossa vida a autêntica perspectiva cristã, não nos apegando a “facilidades diabólicas”. Somente ouvintes ativos da Palavra de Deus conseguem combater essa mentalidade mundana que prega facilidades. Mas compreendendo que o Projeto de Deus para a nossa Salvação exige fé no Senhor que nos chama e esforço pessoal. Pois o Reino de Deus exige força para lutar por ele (cf. Mt. 11, 12).

Para Refletir…

Tu poderias… “Se és Filho de Deus…” Não nos acontece, às vezes, estar também do lado do tentador? “Se és Filho de Deus…” Tu poderias suprimir as fomes, as guerras, a miséria… Tu poderias tornar a tua Igreja próspera e célebre aos olhos das nações… Tu poderias… “Vai-te embora, Satanás!”

Fontes exegéticas:

  1. Don Claudio Doglio
  2. Portal Dehonianos de Portugal

 

 

 

Quarta-feira de Cinzas 2017.

Informações básicas:
– Jejum, Oração e Esmola autênticos.
– Oração –  penitência que nos fortalece contra o mal.
– Leituras: Jl 2, 12-18; Sl 50; 2 Cor 5, 20-6,2; Mt 6, 1-6.16-18.

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles.

papa-recebendo-as-cinzas
Papa Francisco recebendo a imposição das cinzas. 

Hoje iniciamos a Quaresma, e a imposição da cinza —que devemos receber— é acompanhada pela fórmula: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc. 1, 15). Antigamente este rito era acompanhado pelo versículo: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn. 3, 19). Recordando nossa mortalidade,  e sempre um convite a contemplar de uma maneira diferente a nossa vida.

 

Em um contexto de instrução aos seus discípulos, Jesus os adverte acerca da “prática da justiça”.  Justiça esta que consiste em viver conforme aos princípios evangélicos, sem esquecer que Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus (Mt. 5,20).  Estes, usavam da religião e de seus preceitos para se autopromoverem socialmente. Quando se vive uma religião de aparências, cai-se na hipocrisia. O fato de sermos vistos, admirados, elogiados, afagados, constitui-se uma necessidade da nossa carne fraca, por isso, se não estivermos atentos (as), ficaremos esperando elogios, aplausos e nos entristeceremos quando não formos aclamados por causa das nossas boas ações. Porém quando nos deixamos recompensar somente por Deus que está escondido no profundo do nosso ser, então as nossas obras, mesmo que não sejam vistas pelos homens, têm um perfume agradável a Ele e receberemos a Sua recompensa. Fazer para aparecer é não fazer por amor. Deus vê o coração e receberemos a recompensa se agirmos por amor a Ele.

Hoje, nosso Mestre Jesus nos apresenta em seu Evangelho três armas poderosas e eficazes que nos ajudarão em nossa luta pela conversão. A saber: a esmola (caridade), a oração e o jejum.

A caridade é um exercício no relacionamento com o outro. Jesus nos fala no evangelho em dar esmola (do grego eleêmosyne, “piedade, compaixão”) que poderíamos traduzir como alguma obra concreta em favor do irmão. Pois o Amor-Caridade é fazer o bem ao próximo, é querer o bem do outro, como se quer o próprio bem. Nossa fé cristã não é feita apenas de belos ensinamentos e boas intenções. Em nossa vida cotidiana, temos sempre oportunidade de sermos caridosos para com o próximo. Isto não só a nível material, mas também na maneira com que tratamos as pessoas.

O ato de orar é exercitar-se na disciplina do relacionamento com Deus. Jesus destaca o valor da oração pessoal: quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto (Mt. 6, 6a). É por meio da oração que mantemos acesa a chama da fé e do amor em nossos corações, é onde alimentamos nossa intimidade com o Senhor que nos convida a sermos melhores. No corre-corre da vida, frequentemente deixamos de lado nosso momento de oração pessoal diário. E, quando percebemos, já estamos afastados do Senhor e desencorajados diante das dificuldades da vida. Por isso, é preciso encontrar uma disciplina: um horário, um lugar fixo… Com isso, aprenderemos a nos refugiar em Deus.

O Jejum é um exercício que ajuda no relacionamento consigo mesmo. Fortalece a vontade na luta contra os desejos contrários à vida. O jejum se refere sempre a uma disciplina ligada à alimentação. Porém, não se trata de dieta alimentar. Mas um modo de ter autodomínio para que se possa dar um novo sentido ao prazer. E junto com o jejum, temos a abstinência. Conhecemos muito bem a abstinência de carne, mas podem-se praticar muitas outras formas que possam ajudar na disciplina pessoal da vida.  Entretanto, precisamos estar atentos para não cair na “vaidade do jejum”. Há pessoas que se apegam ao jejum como um capricho pessoal, uma vaidade. Fazendo dele um fim e não um meio. Todo jejum deve ser iniciado com espírito de oração, para não ser desviado de seu real sentido.

Esta é a perspectiva da penitência e conversão que Deus pedia ao Povo de Israel, por meio do profeta Joel: voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes (Jl. 2, 12-13). Diante do luto ou das calamidades, era costume o Povo de Israel rasgar suas vestes. E perante a iminente invasão dos povos inimigos, o Senhor pede mais do povo. Somente quando o homem rasga o coração é que ocorre a verdadeira conversão. E podemos reconhecer e clamar com o salmista no Salmo 50: Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos.

A Quaresma é o convite que cada ano nos faz a Igreja a um aprofundamento interior, a uma conversão exigente, como afirma s. Paulo: É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação (2Cor 6,2).  Para que dando os frutos pertencentes que o Senhor espera de nós, vivamos com a máxima plenitude de alegria e o gozo espiritual da Páscoa.

8º Domingo do Tempo comum, Ano A.

Informações básicas:
– Providência de Deus.
– Oração – a paz na vida para servir na alegria.
– Leituras: Is 49, 14-15; Sl 62; 1 Cor 4, 1-5; Ev 6, 24-34.

Não vos preocupeis com o dia de amanhã.

A liturgia do 8º domingo nos propõe como trecho evangélico a última parte do grande discurso doutrinal de Jesus, o Sermão da Montanha. O Mestre nos dá uma “palavra” que nos convida a superar as preocupações.

Após o grande anúncio das Bem-Aventuranças, e o ensinamento da Nova-Lei, dada por Cristo, como “perfeição” que vem de Deus Pai, Jesus insiste na necessidade da confiança. A atitude do filho é de confiar em seu Pai.

Jesus começa usando uma figura que fala dos servos: Ninguém pode servir a dois senhores. Porém, não somos servos, mas nos tornamos filhos de Deus. Logo, é preciso rejeitar a servidão do mundo para sermos realmente filhos de Deus. Se, somos filhos, somos também herdeiros (Rm. 8,17), pois acolhemos a filiação que nos foi dada no batismo. Tornamo-nos capazes de fazer “o extraordinário” que é próprio de Deus. Esta é a confiança que expulsa qualquer preocupação!

gesu-mani-uccelliE o Senhor continua a usar figuras metafóricas para ilustrar seu ensinamento: os pássaros do céu e os lírios do campo… Não cultivam os grãos e nem fiam. Contudo, Jesus não nos diz: “não deveis trabalhar!” Ele quer que aprendamos a crer na Divina Providência, isto é, atrás das nossas ações existe um Pai que prevê e provê, ele cuida de nós!

Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? Jesus nos convida a expulsar a preocupação (ansiedade), aquele medo, o apego em excesso às coisas deste mundo. O convite de Jesus é à confiança, ao trabalho com serenidade, sem ter aquela pretensão frenética de controlar tudo (o tempo, as pessoas e as circunstâncias…). Assim, nos lembremos da máxima de Santo Inácio de Loyola: “Orai como se tudo dependesse de Deus, e trabalhai como se tudo dependesse de vós”.

Para cada dia, bastam seus próprios problemas (suas preocupações). Portanto, vivamos “o hoje” com suas exigências, pois “o amanhã” está nas mãos de Deus. Igualmente, busquemos o Reino de Deus e a sua Justiça. Ou seja, abracemos o seu projeto de Salvação, seu estilo de vida, vivendo com agrada a Deus, do modo que Jesus nos ensinou. E todo o resto será consequência do nosso “sim” a Deus.

O tema da confiança em Deus também é tratado na primeira leitura deste domingo. Onde encontramos o Povo de Israel, humilhado pelo exílio da Babilônia (IV a.C.) sente-se abandonado por Deus e aflito. Isaías o exorta a ter coragem e confiar no Senhor. Existem sim mães que se esquecem de seus filhos, mas Deus nunca nos esquece!

Após aprendermos a valiosa lição da confiança no Pai, podemos recitar o salmo 61: Só em Deus a minha alma tem repouso, só ele é meu rochedo e salvação. É uma oração de confiança, de abandono em Deus. É Nele que encontramos o verdadeiro repouso!

E, na segunda leitura, s. Paulo escreve à tumultuada e crítica Comunidade de Corinto. Esta buscava compreender em profundidade o Projeto de Salvação de Deus. S. Paulo diz que o que realmente importa a nós é que sejamos fiéis. Por isso, confiemos em Deus! Aguardai que o Senhor venha.
Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações.
Não adianta nos agitar e nos preocupar com o futuro. Como verdadeiros filhos, estamos nos braços do Pai.

 Fonte exegética: Don Claudio Doglio

 

 

7º Domingo do Tempo Comum, Ano A.

Informações básicas:
Ser perfeito e santo é amar.
– Oração – conhecer o que é reto, para realizar a vontade de Deus.
– Leituras: Lv. 19, 1-2.17-18; Sl. 102; 1 Cor. 3,16-23; Mt. 5, 38-48.

Amai os vossos inimigos.

sermao_da_montanha7Uma vez mais, damos continuidade ao estupendo Sermão da Montanha. Ouvimos a doutrina da Boa Nova de Jesus, segundo s. Mateus. Ali transmite aos discípulos a Nova Lei, a qual não contradiz a Antiga Lei, mas dar-lhe pleno cumprimento (cf. Mt. 5, 17).

Hoje, continuando o trecho evangélico da semana passada, temos as “antíteses”, compostas de cinco sentenças. Sendo três delas vistas no último domingo. E para hoje, restam ainda duas.

Jesus começa recordando a conhecida “Lei de talião”[1], isto é, a lei da retaliação. Onde se prega que a pena deve ser proporcional à culpa/dano causado. E Jesus nos propõe “algo a mais”, que vai além de uma simples justiça retributiva. Ele propõe um “dom de graça”, capaz de mudar, converter o coração do homem: “Não enfrenteis que é malvado!” (Mt. 5, 39). A nossa oposição ao malvado deve ser feita pondo em prática este “algo a mais”, com dose extra de Amor-Caridade.

“Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’”(Mt. 5, 43). Esta segunda parte não é bíblica, mas sim uma explicação corrente na época: o inimigo/adversário perigoso, esse é digno de ódio. Jesus nos propõe uma atitude que vai “de encontro” ao inimigo. Não só amar o próximo, mas oferecer uma possibilidade àqueles que não são próximos ou ligados afetivamente a nós. É a possibilidade de por em prática este algo a mais.

“E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário?” (Mt. 5, 47).  Cumprimentar quem nos é amistoso é um gesto instintivo. Até um cão reage bem a quem lhe trata bem e rosna a quem lhe ameaça ferir. Muitas vezes nos comportamos assim: tratamos bem os amigos e nos consideramos os melhores cristãos. Jesus, quando nos propõe o algo a mais, não nos pede o impossível, mas nos dá a capacidade de fazer o extraordinário. É a Graça de Jesus que nos dá esta capacidade.

“Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5, 48). Com o auxílio da Graça de Jesus podemos alcançar a perfeição, isto é a plena maturidade, porque somos filhos. O Pai é assim e nos transmite a sua capacidade de amar. Podemos ser maduros no modo de amar, como é o Pai.

A primeira leitura de hoje é composta por uma série de antigos preceitos, é a nobreza da Antiga Lei, mais conhecida como o Código de santidade do Levítico. Este culmina com o mandato do amor ao próximo (cf. Lv. 19, 18). Muito similar ao que nos foi transmitido por Jesus. Sendo o seu diferencial a sua própria Pessoa. Como Legislador, Ele deu aos seus discípulos a capacidade extraordinária, a conformação dos filhos ao Pai: Deus é Amor (I Jo. 4, 8) e, espera de nós gestos de amor.

Assim, como filhos do Pai misericordioso, podemos louvá-Lo, como o salmista no Salmo 102. Que eleva um grande louvor ao Deus da Misericórdia: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo”. Ele é Perfeito no amor e, nós como filhos, temos como herança a sua enorme capacidade de amar.

Na segunda leitura deste domingo, s. Paulo escreve aos Coríntios, fazendo uma séria exortação: não vos iludais com vossa autossuficiência, em serem autônomos. Pois a mentalidade deste mundo é insensatez. Ou seja, precisamos acolher a Sabedoria que vem de Deus e nos deixar formar por ela. Se acolhermos a Graça de Deus, teremos a possibilidade de sermos realmente sábios. “Portanto, que ninguém ponha a sua glória em homem algum… Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (I Cor. 3, 22-23).

***

[1]lei de talião, do latim lex talionis (lex: lei e talio, de talis: tal, idêntico), também dita pena de talião, consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena — apropriadamente chamada retaliação. Esta lei é frequentemente expressa pela máxima olho por olho, dente por dente. Os primeiros indícios do princípio de talião foram encontrados no Código de Hamurábi, em 1 780 a.C. no reino da Babilônia.

6º Domingo do Tempo Comum, Ano A.

Informações básicas:
o Amor como plenitude da Lei.
– Oração – Deus vive nos corações sinceros e retos, que os nossos sejam.
– Leituras: Eclo 15, 16-21; Sl 118; 1 Cor 2, 6-10; Mt 5, 17-37.

Assim foi dito aos antigos; eu, porém, vos digo.

sermao-da-montanhaHoje, mais uma vez, ouvimos a doutrina da Boa Nova de Jesus, segundo s. Mateus. Em três capítulos o Evangelista expõe a doutrina cristã, tendo como “cenário” (ambiente) Jesus que ensina sobre a Montanha (cf. Mt. 5,1). Ali transmite aos discípulos a Nova Lei, a qual não contradiz a Antiga Lei, mas dar-lhe pleno cumprimento (cf. Mt. 5, 17).

No trecho deste domingo temos as “antíteses”, compostas de cinco sentenças, onde Jesus manifesta grande autoridade: “assim foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo…”. Esta contraposição não gera conflito, mas sim, completa o sentido da Lei. Ele mesmo já havia esclarecido isto antes. A obra de Jesus é favorecer a prática dos Mandamentos, até nas pequenas coisas!

Mas olhando de modo superficial, vemos grande rigorosidade neste ensinamento (quem nunca se encolerizou/sentiu raiva de um irmão?).  Vendo por este viés, não compreendemos a Boa Nova do ensinamento de Jesus. Em nosso olhar, temos que levar em conta que todos os Mandamentos são preceitos de ação que vai do exterior para o interior de quem os pratica. Os mestres da Lei (escribas) e os fariseus eram irrepreensíveis, do ponto de vista legal. Entretanto, Jesus não nos diz: “Sejam como os mestres da Lei e os fariseus”, mas sim, “se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (v 20).  [Interpreto aqui o conceito de justiça como correspondente à santidade]. Ou seja, Ele nos convida a superá-los! Mas como é possível?

O que Jesus nos propõe é Graça, é Dom de Deus. Como cristãos batizados e templos de Deus, temos a Sua força em nós (cf. Jo. 7, 38). Esta “força” é luz, é sabedoria que vem do próprio Deus! A Lei diz: “Não Matarás!” Porém, Jesus nos dá a possibilidade de irmos além: amar e tratar bem o irmão. Pois aquele que tem e age com Caridade cumpre toda a Lei (cf. Rm. 13, 10). O próprio Jesus nos deixou o exemplo. A Lei que Jesus propõe é Graça de uma vida nova, a possibilidade de cumprir em plenitude o que agrada a Deus.

Em nossa 1ª leitura, extraída do Eclesiástico (Sirácidas), o autor chamado Jesus Bensirac (mestre da Lei de Jerusalém, 180 a.C.) afirma que Deus nos dá a possibilidade de escolhas: “Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água… Estão a vida e a morte, o bem e o mal; receberá aquilo que preferir” (Eclo. 15, 17-18). Quem põe a mão no fogo, se queima! Mas a ninguém Deus manda queimar-se. Mas nos indica o caminho do bem.

Jesus Cristo vai além, pois por sua Graça torna possível não apenas “fazer o bem”, mas de sermos bons, pela Bondade de Deus em nós! E nos dá a felicidade: “Feliz quem na Lei do Senhor Deus vai progredindo!” (Sl. 118).

Já na 2ª leitura, s. Paulo fala de uma sabedoria voltada para os “perfeitos” (cristãos conscientes e maduros). Sabedoria que não é terrena. Por isso, os grandes deste mundo não a conheceram. Para sermos homens e mulheres sábios, precisamos amadurecer na fé. Este é o caminho da vida, revelado a nós pelo Espírito: viver como Jesus (autênticos cristãos). “Que o vosso sim seja sim, e o vosso não seja não” (Mt. 5. 37). Assim, na sinceridade e autenticidade da vivência cristã, nós reinaremos com Ele.

 

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A XXV JORNADA MUNDIAL DO ENFERMO 2017

 «Admiração pelo que Deus faz: “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49)»

Queridos irmãos e irmãs,

Pope Francis visits 'Bambin Gesu' children's hospitalNo próximo dia 11 de fevereiro, celebrar-se-á em toda a Igreja, e de forma particular em Lourdes, a XXV Jornada Mundial do Doente, sob o tema: «Admiração pelo que Deus faz: “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49)». Instituída pelo meu predecessor São João Paulo II em 1992 e celebrada a primeira vez precisamente em Lourdes no dia 11 de fevereiro de 1993, tal Jornada dá ocasião para se prestar especial atenção à condição dos doentes e, mais em geral, a todos os atribulados; ao mesmo tempo convida quem se prodigaliza em seu favor, a começar pelos familiares, profissionais de saúde e voluntários, a dar graças pela vocação recebida do Senhor para acompanhar os irmãos doentes. Além disso, esta recorrência renova, na Igreja, o vigor espiritual para desempenhar sempre da melhor forma a parte fundamental da sua missão que engloba o serviço aos últimos, aos enfermos, aos atribulados, aos excluídos e aos marginalizados (cf. João Paulo II, Motu proprio Dolentium hominum, 11 de fevereiro de 1985, 1). Com certeza, os momentos de oração, as Liturgias Eucarísticas e da Unção dos Enfermos, a interajuda aos doentes e os aprofundamentos bioéticos e teológico-pastorais que se realizarão em Lourdes, naqueles dias, prestarão uma nova e importante contribuição para tal serviço.

Sentindo-me desde agora presente espiritualmente na Gruta de Massabiel, diante da imagem da Virgem Imaculada, em quem o Todo-Poderoso fez maravilhas em prol da redenção da humanidade, desejo manifestar a minha proximidade a todos vós, irmãos e irmãs que viveis a experiência do sofrimento, e às vossas famílias, bem como o meu apreço a quantos, nas mais variadas tarefas de todas as estruturas sanitárias espalhadas pelo mundo, com competência, responsabilidade e dedicação se ocupam das melhoras, cuidados e bem-estar diário de todos vós. Desejo encorajar-vos a todos – doentes, atribulados, médicos, enfermeiros, familiares, voluntários – a olhar Maria, Saúde dos Enfermos, como a garante da ternura de Deus por todo o ser humano e o modelo de abandono à vontade divina; e encorajar-vos também a encontrar sempre na fé, alimentada pela Palavra e os Sacramentos, a força para amar a Deus e aos irmãos mesmo na experiência da doença.

Como Santa Bernadete, estamos sob o olhar de Maria. A jovem humilde de Lourdes conta que a Virgem, por ela designada «a Bela Senhora», a fixava como se olha para uma pessoa. Estas palavras simples descrevem a plenitude dum relacionamento. Bernadete, pobre, analfabeta e doente, sente-se olhada por Maria como pessoa. A Bela Senhora fala-lhe com grande respeito, sem Se pôr a lastimar a sorte dela. Isto lembra-nos que cada doente é e permanece sempre um ser humano, e deve ser tratado como tal. Os doentes, tal como as pessoas com deficiências mesmo muito graves, têm a sua dignidade inalienável e a sua missão própria na vida, não se tornando jamais meros objetos, ainda que às vezes pareçam de todo passivos, mas, na realidade, nunca o são.

Bernadete, depois de estar na Gruta, graças à oração, transforma a sua fragilidade em apoio para os outros; graças ao amor, torna-se capaz de enriquecer o próximo e, sobretudo oferece a sua vida pela salvação da humanidade. O facto de a Bela Senhora lhe pedir para rezar pelos pecadores lembra-nos que os doentes, os atribulados não abrigam em si mesmos apenas o desejo de curar, mas também o de viver cristãmente a sua existência, chegando a doá-la como autênticos discípulos missionários de Cristo. A Bernadete, Maria dá a vocação de servir os doentes e chama-a para ser Irmã da Caridade, uma missão que ela traduz numa medida tão elevada que se torna modelo que todo o profissional de saúde pode tomar como referência. Por isso, peçamos à Imaculada Conceição a graça de saber sempre relacionar-nos com o doente como uma pessoa que certamente precisa de ajuda – e, por vezes, até para as coisas mais elementares – mas também é portadora do seu próprio dom que deve partilhar com os outros.

O olhar de Maria, Consoladora dos aflitos, ilumina o rosto da Igreja no seu compromisso diário a favor dos necessitados e dos doentes. Os preciosos frutos desta solicitude da Igreja pelo mundo dos atribulados e doentes são motivo de agradecimento ao Senhor Jesus, que Se fez solidário conosco, obedecendo à vontade do Pai até à morte na cruz, para que a humanidade fosse redimida. A solidariedade de Cristo, Filho de Deus nascido de Maria, é a expressão da omnipotência misericordiosa de Deus que se manifesta na nossa vida – sobretudo quando é frágil, está ferida, humilhada, marginalizada, atribulada –, infundindo nela a força da esperança que nos faz levantar e sustenta.

Uma riqueza tão grande de humanidade e de fé não deve ficar perdida, mas sim ajudar-nos a enfrentar as nossas fraquezas humanas e, ao mesmo tempo, os desafios presentes em âmbito sanitário e tecnológico. Por ocasião da Jornada Mundial do Doente, podemos encontrar novo impulso a fim de contribuir para a difusão duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente; encontrar um renovado impulso a fim de lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela dos mais fracos e o cuidado pelo meio ambiente.

Por ocasião da XXV Jornada Mundial do Doente, reitero a minha proximidade feita de oração e encorajamento aos médicos, enfermeiros, voluntários e a todos os homens e mulheres consagrados comprometidos no serviço dos doentes e necessitados; às instituições eclesiais e civis que trabalham nesta área; e às famílias que cuidam amorosamente dos seus membros doentes. A todos, desejo que possam ser sempre sinais jubilosos da presença e do amor de Deus, imitando o testemunho luminoso de tantos amigos e amigas de Deus, dentre os quais recordo São João de Deus e São Camilo de Lélis, Padroeiros dos hospitais e dos profissionais de saúde, e Santa Teresa de Calcutá, missionária da ternura de Deus.

Irmãs e irmãos todos – doentes, profissionais de saúde e voluntários –, elevemos juntos a nossa oração a Maria, para que a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo seu Filho a esperança no caminho da cura e da saúde, o sentido da fraternidade e da responsabilidade, o compromisso pelo desenvolvimento humano integral e a alegria da gratidão sempre que Ele nos maravilha com a sua fidelidade e a sua misericórdia:

Ó Maria, nossa Mãe,
que, em Cristo, acolheis a cada um de nós como filho,
sustentai a expectativa confiante do nosso coração,
socorrei-nos nas nossas enfermidades e tribulações,
guiai-nos para Cristo, vosso filho e nosso irmão,
e ajudai a confiarmo-nos ao Pai que faz maravilhas.

 

A todos vós, asseguro a minha recordação constante na oração e, de coração, concedo a Bênção Apostólica.

Vaticano, 8 de dezembro – Festa da Imaculada Conceição – de 2016.

Pp. Francisco.