FALSA IDOLATRIA: Os Iconoclástas (“quebradores de imagens”) de hoje – parte 2 .

Diante da tal matéria (citada anteriormente) qual dos lados estaria com a razão? Estaria a Igreja Católica infringindo o Mandamento de Ex. 20,4 ou estaria a Igreja aplicando-o conforme a vontade de Deus? 

Qual a diferença entre IMAGEM E ÍDOLO?

A imagem é muito mais do que uma simples escultura: na verdade é qualquer coisa que permite excitar a nossa vista, pouco importando se é uma escultura, um desenho, uma pintura, um objeto. Até mesmo os dicionários não religiosos são unânimes em afirmar que a imagem é a representação de um objeto pelo desenho, pintura, escultura, etc. Logo, uma pintura de Michelangelo é uma imagem da mesma forma que o desenho do tio Patinhas e o busto do Duque de Caxias também o são, de modo que não importa se a imagem está em “segunda dimensão” (podendo ser representada num plano x-y) ou em “terceira dimensão” (representada no plano x-y-z), mas que ela excite a vista e, por consequência, a imaginação, que é a capacidade de conceber abstratamente aquilo que é concreto, real.

pastor chuta santa
Inesquecível: pastor da “IURD” CHUTANDO IMAGEM – 1994.

Desta forma, uma imagem – principalmente a imagem religiosa – encerra um sentido muito mais profundo do que o próprio objeto. Ela, sem precisar – necessariamente – fazer uso da palavra, consegue falar e sensibilizar as pessoas com muito mais facilidade que ótimos oradores, pois carrega uma linguagem própria que nem sempre precisa excitar nossos ouvidos. É inegável o poder de persuasão da imagem: a TV (imagem) não suplantou o rádio (palavra)? São Paulo não se converteu ao Evangelho graças à visão resplandecente de Cristo no caminho de Damasco? Quantos homens também não se converteram por um simples olhar para uma imagem ou crucifixo mudos no interior de uma igreja? Até mesmo a Bíblia afirma que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn. 1,26-27). Vemos, assim, que o velho ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras” é mais do que verdadeiro: é uma realidade.

Já o Ídolo não é – e jamais foi! – sinônimo de imagem. Ambos são distintos e inconfundíveis…

Ao contrário da imagem, que excita a vista, o ídolo é aquilo que substitui o único e verdadeiro Deus. Um bom exemplo, que confirma a nossa tese, é o episódio do bezerro de ouro narrado em Ex. 32: como Moisés demorava para descer do Monte Sinai, os hebreus fugitivos do Egito não tardaram a confeccionar um bezerro em ouro, a quem cultuaram como se fosse o verdadeiro Deus.

Elementos que caracterizam o ídolo(segundo Ex. 32,1b-2.4.6a) :

  1. Confunde-se com o verdadeiro e único Deus.
  2. São-lhe atribuídos poderes exclusivamente divinos.
  3. São-lhe oferecidos sacrifícios devidos ao verdadeiro Deus.
  4. A resposta da Igreja sobre a questão das imagens sacras já no séc. VIII

Com a eclosão da iconoclastia nos séculos VIII e IX, o Segundo Concílio de Nicéia, em 787, reafirmou solenemente a validade da veneração das imagens, não pelo valor do material em si, mas pelo valor das figuras que representam; seu culto, assim, é relativo, explicando-se pelo oferecimento indireto das orações àqueles que as imagens representam. Assim se definiram os padres conciliares na Sessão de 13 de outubro de 787:

“Definimos […] que, como as representações da Cruz, […] assim também as veneráveis e santas imagens, em pintura, em mosaico ou de qualquer outra matéria adequada, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nas casas e nas estradas. O mesmo se faça com a imagem de Deus Nosso Senhor e de Jesus Cristo Salvador, com as da […] Santa Mãe de Deus, com as dos Santos anjos e as de todos os Santos e justos. Quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão levados a se recordar dos modelos originais, a se voltar para eles, a lhes testemunhar… uma veneração respeitosa, sem que isso seja adoração, pois esta só convém, segundo a nossa fé, a Deus”.

Portanto, se a História é realmente mestra da vida, como afirmava o filósofo Cícero, por que não aprendemos com os erros do passado e não abraçamos a Caridade verdadeira que nos ensina Nosso Senhor? Se sabemos que tantos cristãos foram torturados e mortos no período da perseguição iconoclasta, por que ainda alimentar a discórdia?

O que lemos em artigos como os que encontramos em blogues e sites que se dizem “apologéticos” (e não o são de fato!) só contribuem para um “proselitismo puritano” que nos escravizam e tiram nossa liberdade que temos em Cristo Jesus (cf. Gl. 2,4). Estranhamente, eles afirmam respeitar “todas as pessoas de todas as religiões”, mas não se dão ao respeito. Artigo condenável e totalmente desrespeitoso.

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FALSA IDOLATRIA: Os Iconoclástas (“quebradores de imagens”) de hoje – parte 1.

cirio1Recentemente, enquanto fazia uma busca sobre o Círio de Nazaré (PA), me deparei com um infame site chamado: Centro Apologético Cristão de Pesquisas” (CACP), com um artigo intitulado “O pecado da idolatria”. Em tal artigo, trazia uma foto do Círio em Belém.

Isso foi o que me motivou a escrever algumas notas sobre o tema. É triste ver que muitas pessoas ao se depararem com tal artigo o tomam como verdade absoluta, sem criticidade alguma e , nem mesmo se dão ao trabalho de observar as suas fontes.

O ser humano, como ser dotado de razão, deve aprender com a sua História. A Igreja, como Instituição divino-humana, tem também a sua História.  E o que ela diz a este respeito?

Iconoclastia ou Iconoclasmo (do grego εικών, transl. eikon, “ícone”, imagem, e κλαστειν, transl. klastein, “quebrar”, portando “quebrador de imagem”) foi um movimento político-religioso contra a veneração de ícones e imagens religiosas no Império Bizantino que começou no início do século VIII e perdurou até ao século IX. [1] Os iconoclastas acreditavam que as imagens sacras seriam ídolos, e a veneração e o culto de ícones por conseqüência, – idolatria.

Em oposição a iconoclastia existe a iconodulia ou iconofilia (do grego que significa “venerador de imagem”), ao qual defende o uso de imagens religiosas, “não por crer que lhes seja inerente alguma divindade ou poder que justifique tal culto, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135, 15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos protótipos que representam, de modo que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os santos cuja semelhança apresentam. [2]

Clique aqui para a 2ª parte.

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[1] Иконоборчество. http://slovari.yandex.ru/dict/bse/article/00029/11700.htm?text=иконоборчество. Большая Советская Энциклопедия. издательство = Советская энциклопедия. 1969 — 1978
[2] Denzinger, Henrici; Hünermann, Petrus, Enchiridion symbolorum, definitionum et declarationum de rebus fidei et morum (Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral), Paulinas (publicado em versão portuguesa brasileira em 2007), pp. 460 (Denzinger-Hünermann [*1823).

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Um exemplo de ignorância:

28° Domingo Tempo Comum, Ano A.

Informações básicas:

– Todos são convidados ao Banquete;

– Oração – Que a graça de Deus nos preceda;

–  Is 25, 6-10; Sl 22; Fl 4, 12-14.19-20; Mt 22, 1-14.

 Convidai para a festa todos os que encontrardes.

Mateus 22,1-14O 28° domingo do tempo comum nos propõe a terceira parábola que Mateus utiliza para representar a rejeição do povo de Israel a missão de Jesus. Nós ouvimos alguns domingos atrás a “parábola dos dois filhos” cujo enfoque era a figura de João Batista; no domingo passado, o ponto principal foi a figura do Filho que vem assassinado pelos vinhateiros homicidas; já a terceira parábola nos apresenta um Convite ao banquete, nos propõe a figura de um rei que prepara a festa de casamento para o seu filho. É clara a figura parabólica que se apresenta: o rei é Deus Pai, o filho é Jesus Cristo e, o “banquete de casamento” é a Festa Messiânica que acompanha o evento da vinda do Messias. Os convidados para o banquete não desejam participar. Além disso, agridem e matam os emissários do convite real. Os tais convidados indignos são severamente punidos pelo rei vendo sua cidade destruída e incendiada. Surge, assim, o drama histórico, pois, certamente o evangelista Mateus faz uma alusão ao ocorrido no ano 70 d.C., quando Jerusalém foi reduzida a ruínas.

O objetivo dessa parábola é ressaltar o drama daqueles que seguem Jesus: os seus enviados, os que vieram antes de Jesus, os profetas, foram rejeitados. Depois, o próprio Jesus foi rejeitado e agora os seguidores de Jesus continuam a ser rejeitados. É uma situação trágica que se repete sempre, em referência a Jesus.

Os primeiros convidados não aceitam o convite, mas, o convite estendido a outros convidados. Ou seja, são todos os povos raças e nações que são convidados a ocupar lugar na mesa do banquete messiânico. Então, a sala do banquete fica repleta de pessoas, as quais tomam parte todo tipo de gente, maus e bons, como ressalta o evangelista. O rei, passando entre os seus convidados encontra um destacado, sem o traje de festa. Curiosamente este estranho é chamado de amigo, mas, não em tom cordial. O equivalente em grego seria mais ou menos: “Ei, você aí! Com que audácia entrou aqui sem o traje de festa?”

Eu faço uma pergunta a todos vocês: o que representa esse traje de festa? Esse simboliza a vida digna de cristão, coerente com o estado de graça, que visa fazer o bem.

 O Santo Padre, o Papa Bento XVI, em sua visita à diocese de Lamezia Terme em 2011 (onde trabalhei por alguns anos da sua vida), comentando esta parábola, recordava São Gregório Magno. Dizendo que o traje de festa é a caridade, ou seja, o amor. E São Gregório acrescenta: “Cada um de vós, portanto, que, na Igreja, tendes fé em Deus, já tomeis parte do banquete nupcial, mas não podeis afirmar ter a treje nupcial se não preservais a graça da Caridade” (Homilia 38, 9: PL 76, 1287). E este traje está interligado simbolicamente por duas varas, uma acima da outra: o amor de Deus e o amor ao próximo (cf. ibid, 10:. PL 76,1288). Todos nós somos convidados a ser comensais do Senhor, a entrar com fé no seu banquete, mas devemos usar e preservar o traje nupcial, a caridade, viver um profundo amor por Deus e pelo próximo.

Lembremos que “traje” nos recorda uma outra palavra similar: “hábito”. Este representa também maneira de se comportar, estilo de vida. Mateus nos diz com a parábola de hoje, que não basta apenas entrar na Igreja, mas, é preciso agir como um filho da Igreja, um convidado para ceia nupcial do cordeiro, mudando nossa maneira de agir, o nosso modo de pensar, nos conformando com o Amor-Caridade que vem de Deus. Caso contrário, o destino desse homem perverso da parábola será o nosso: ter amarrado os pés e mãos e ser lançado fora, na escuridão.

A primeira leitura de hoje é extraída do trecho do profeta Isaías.  É também um trecho de gênero apocalíptico, no qual Isaías compara o fim dos tempos há um banquete de ricas iguarias: o Senhor Deus eliminará para sempre a morte enxugará as lágrimas e nos dará para sempre a vida.  A este banquete são convidadas todas as nações, o mesmo que nos fala Jesus em sua parábola, mas, muitos são convidados poucos são escolhidos.

O salmo que hoje nos é proposto é o 22, o Salmo do Pastor. Foi escolhido para o dia de hoje de modo particular pela sua segunda parte, onde o Pastor se torna um “anfitrião” de um banquete. Prepara uma mesa diante a um refugiado que busca fugir do seu inimigo. É como se o salmista nos dissesse: me acolheis em vossa casa preparais à minha frente uma mesa bem à vista do inimigo e com óleo ungis minha cabeça e fazei o meu cálice transbordar. Por isso, decidi permanecer em vossa casa onde sou feliz para sempre. É o que o Senhor tem destinado para nós, seus convidados.

Na segunda leitura, temos a continuação da carta de São Paulo aos Filipenses. Paulo fala de sua atitude de “homem forte e virtuoso”, capaz de enfrentar toda dificuldade. Por isso, disse: tudo posso naquele que me dá força. É uma expressão forte, pois a força do Cristão vem do próprio Cristo. E se ele me dá força sou capaz de fazer tudo posso enfrentar toda a dificuldade: posso viver na pobreza e na riqueza na fome e na abundância. Quem aceita o convite e veste o traje de festa, assume uma força surpreendente e enfrenta as dificuldades da vida com a serenidade e a coragem de São Paulo.

 

27º Domingo do Tempo Comum, ano A.

Informações básicas:
– A vinha do Senhor;
 – Oração – Deus perdoa o que nos pesa na consciência;
– Is 5, 1-7; Sl 79; Fp 4, 6-9; Mt 21, 33-43.

Arrendou a vinha a outros vinhateiros.

H27-domingo-comumoje o evangelho que nos é proposto é a última das três “parábolas da Vinha” que encontramos no evangelho de São Mateus. Esta última parábola também é encontrada nos outros sinóticos.  Mais uma vez, Jesus conta uma parábola aos sumos sacerdotes e aos anciãos do Povo (ricos latifundiários). Na estória, encontramos alguns agricultores que se rebelaram contra o dono da Vinha. Eles não pagam o arrendamento, isto é, o aluguel das terras. Então, agridem os empregados enviados para cobrar os frutos, até matam um deles a pedradas. Chegando ao cúmulo de matar também o filho do dono da Vinha! Fato como este, encontrar agricultores explorados e revoltosos não era incomum em Israel. Os ricos (como os destinatários da parábola) eram donos de vinhedos arrendados.

Jesus sendo, um mestre quem sua pregação e ensinamentos defendia os pobres (como os agricultores explorados por ricos latifundiários), os sumos sacerdotes e os anciãos do Povo pensavam que era esse o objetivo da parábola. Ao fim da parábola, eles são questionados: “o que o dono da Vinha fará com esses vinhateiros?”

Como a resposta dura buscavam agredir Jesus, mas, acabam por impor sobre si mesmos a própria condenação.

E utilizando a própria Escritura, Jesus lhes explica que não são eles “o dono da Vinha”, mas, sim, os vinhateiros Rebeldes. São os que administram a vinha, porém, não damos frutos ao dono, ou seja, a Deus. Sendo eles os perversos que merecem morte violenta, contudo, Deus não agir assim. Na mesma parábola Jesus anuncia o seu próprio fim. Poucas semanas após este episódio, Jesus será entregue à morte e os sumos sacerdotes e chefes do Povo perderão o controle da Vinha, isto é, do Reino de Deus. Nós, como Igreja, nos foi entregue o controle da Vinha (do Reino de Deus). E o Senhor espera que nós produzimos frutos e lhe entreguemos esses mesmos frutos a seu tempo. Os frutos que Deus espera que produzamos são frutos de Justiça e frutos de Amor-Caridade aos irmãos.

Na primeira leitura de hoje, extraída do livro do profeta Isaías, o Profeta canta o cântico da Vinha de um amigo. Na linguagem do antigo Israel “plantar uma vinha” significa “constituir família”; “trabalhar pela vinha” é o mesmo que “cortejar” ou “paquerar” uma pretendente. E o amigo não obtém resultado, senão frutos selvagens, uvas acerbas. “A vinha do senhor dos exércitos é a casa de Israel”. Deus esperava a justiça e veio somente injustiça, ele esperava obras de bondade e veio apenas iniquidade. Já 700 Anos a.C., o Profeta censurava o povo pelo mau comportamento diante de Deus. Também não salmo de hoje o Salmo 79 encontramos a mesma afirmação: “a vinha do senhor é a casa de Israel”. O salmista pede a Deus que intervenha, vindo em socorro da sua vinha abandonada negligenciada por maus agricultores.

E concluímos com a segunda leitura. Onde temos a continuação da carta aos Filipenses. São Paulo nos dá algumas indicações morais acerca da vida em comunidade, e convida a todos a aderirem ao Senhor de modo coerente e pleno. Mais do que “evitar o mal”, somos convidados a “praticar o bem”. Assim, em suas palavras: “ocupai-vos de tudo que é verdadeiro, respeitável, justo puro, amável, honroso, tudo que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor”. Os frutos que Deus espera de nós são esses. No último dia, nós seremos julgados não apenas pelo mal praticado. Mas pelo bem que nós deixamos de fazer. A isto chamamos de “pecado por omissão”. Deus nos chama hoje a lutarmos pelo seu Reino de amor justiça e paz que começa aqui entre nós.

 

 

 

26º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Informações básicas:
– Ser cristão é agir bem;
– Oração – Deus mostra seu poder no amor e na misericórdia;
– Ez 18, 25-28; Sl 24; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32.

Jesus-no-TemploDando continuidade a leitura do Evangelho de São Mateus, no domingo passado chegamos a uma pequena série de parábolas que descrevem a reação do povo de Israel à pregação de Jesus, sobre o Reino de Deus. A parábola de hoje é encontrada somente no Evangelho de São Mateus, “a parábola dos dois filhos”,  que são diferentes entre si, em suas palavras e em suas atitudes. Ao centro da parábola encontramos o pai e a vinha. O Pai pede aos filhos para irem trabalhar em sua vinha. O primeiro, diz “não”, mas, depois “muda de opinião” (se converte) e vai trabalhar na vinha. O outro responde “sim”, mas, o fato é que não cumpre nada daquilo que o pai lhe pede.  Logo, o tema proposto por Jesus é a conversão. Esta parábola é contada propositalmente para os sacerdotes e os chefes do Povo para mostrar uma atitude de mudança.  Com dureza, Jesus afirma: “os publicanos e as prostitutas vos precedem no reino de Deus”. Dizendo as autoridades que os publicanos, isto é, os cobradores de impostos, e as prostitutas lhes precedem ∕ passam-lhes a frente. Mas isso não porque sejam simplesmente pecadores, mas porque se deixaram converter o coração.

A referência disso é a figura de João Batista.  Pois antes de Jesus, veio João que anunciou o Reino de Deus e o chamado à conversão. E, a ouvi-lo, os publicanos e as prostitutas acolheram a palavra de João e buscaram a conversão, aceitando o Reino de Deus. Mas, os chefes do povo, ao contrário, nem sequer se arrependeram para poder acreditar nele.  O ponto delicado é o arrependimento, ou seja, a dor sentida pelo pecado cometido. Se não se reconhece que errou não se pode sentir a dor do arrependimento pelo erro cometido. Não basta dizer “sim” com a boca, com belos discursos religiosos se depois com atitudes e obras a resposta for negativa ao Reino de Deus.

            A primeira leitura de hoje, extraída do livro do profeta Ezequiel, ressalta que cada um é responsável pelas escolhas que faz. Também aqui encontramos como ponto central o arrependimento, que para Ezequiel, é um modo decisivo para acolher a vida.  A conversão ou mudança é o ponto delicado sobre qual a palavra de Deus nos convida a refletir. Somos tocados no íntimo pela palavra de Deus e ela nos conduz a uma mudança. Se a palavra que nós ouvimos não se torna vida, não nos faz mudar realmente a nossa vida para melhor, com o tempo nós pioramos.  Somos como chefes do povo de Israel que afirmavam que “a conduta do senhor não é correta”.

Com o Salmo 24, nós queremos reconhecer diante de Deus as nossas culpas e pedir compaixão, Misericórdia de nossos pecados. Mas para poder nos arrepender é preciso reconhecer o erro cometido. E com as palavras do Salmo, pedimos ao Senhor que nos faça “conhecer a sua estrada que sua verdade nos oriente e nos conduza”. Portanto, se me deixo instruir pelo Senhor, a sua Palavra põe luz no meu comportamento e atitudes que são negativos e errôneos e,  encontro a conversão.

            Na segunda leitura temos um trecho da carta de São Paulo aos Filipenses. São Paulo pede a comunidade que abandone a vanglória e atitudes de soberba no relacionamento humano.  Que não busquem o interesse próprio, mas, estejam atentos às necessidades dos outros. No fim, sintetiza tudo em uma frase maravilhosa: tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Esta é a atitude do verdadeiro cristão: ter “o mesmo sentimento de Cristo Jesus” nosso Senhor. O sentimento de Jesus expressa o seu modo de pensar as suas atitudes mais profundas e concretas. É o filho obediente que diz “sim” com os lábios, mas também faz aquilo que o Pai quer que seja feito. E São Paulo conclui trecho com um antigo hino cristológico, onde exalta o senhorio de Jesus: Jesus Cristo é o Senhor!

O que é PUREZA CRISTÃ?

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).

Santa Maria Goretti (ícone moderno)Todos os ano no dia 06 de julho, a Igreja nos convida a refletir sobre a figura de uma frágil, e ao mesmo tempo forte menina, que é um exemplo de pureza cristã em nossos dias: Maria Goretti. Era uma mocinha pobre que não tinha uma beleza extraordinária, mas em seus olhos era perceptível o ideal de pureza cristã que abraçara.

Evidentemente a sociedade contemporânea é muito distinta da que viveu nossa jovem santa. Hoje em dia houve uma grande mudança na concepção dos valores que regem a sociedade. E, infelizmente, no que tange à questão da pureza, não é diferente.

O valor da pureza está hoje em dia desvalorizado e, sobretudo, no que diz respeito à castidade.  Uma mulher afirmar que é virgem é algo antiquado, fora de moda; e para um rapaz dizer isso é até humilhante entre seus iguais. Ao mesmo tempo em que, ainda hoje, encontramos uma base daquilo que outrora fora a concepção comum a todos, como por exemplo, ao falarmos do melhor azeite de oliva, nos remetemos ao melhor, ao “extra-virgem”; a melhor lã é a “virgem”(dentre outros exemplos). Com isso, exaltamos, mesmo que inconscientemente, aquilo que é “mais puro” como um valor.[1]

É comum nos dias de hoje encontrarmos jovens preocupados com sua saúde, com o cuidado físico, o que é muito importante. Nosso maior patrimônio é o nosso corpo, que é dom e templo do Espírito de Deus (cf. I Cor. 3,16). É preciso ressaltar, porém, que no meio de tanta boa intenção e zelo pelo corpo, existem muitos jovens que visam apenas fins estéticos e superficiais, fazendo do corpo (que é um meio) um fim em si mesmo. Esse tipo de atitude pode levá-los a cair numa vaidade exacerbada, num narcisismo doentio e naquilo que chamamos de hedonismo, ou seja, tomar o prazer como bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral. De fato, existem muitos que se deixam levar pelos “modismos” que todos os dias são lançados através da mídia.

Quando nos referimos à sexualidade a situação fica ainda mais complexa. Para se tornar atraente, vale quase tudo: desde intermináveis sessões de musculação, a um número sem fim de horas dedicadas a salões de beleza e clínicas de estética. Percebemos também que as relações se tornam cada vez mais efêmeras e superficiais. O hedonismo faz com que usemos o (a) outro (a) como objeto de prazer, confundindo amor com concupiscência.

Essa mentalidade hedonista acabou despertando uma reação que vem na contramão do comportamento social que ela produz. Surgiram, por exemplo, nos EUA, os ditos “Movimentos de Pureza”. O primeiro deles surgiu faz pouco mais de uma década. Atualmente existem dois movimentos internacionais reconhecidos: “Silver Ring Thing” e “One Love One Wathing”. Os dois grupos ganharam notoriedade pela identificação do uso de um anel de prata, popularmente conhecido como anel de pureza, usado por aqueles que assumem o compromisso de se guardarem para o casamento. No Brasil, existem alguns movimentos (ligados a algumas igrejas protestantes-evangélicas) que se mobilizaram com vários nomes: Anel de Pureza, Anel de Castidade, Aliança de Compromisso, Anel de Prata, Aliança de Pureza, entre outros.

Infelizmente os jovens que aderem a esses movimentos caem num extremismo, chegando ao cúmulo de afirmar que nem sequer beijam a pessoa amada, para manterem a sua pureza preservada.  Eu lhes pergunto: mas que pureza é essa que me priva de me relacionar com meus semelhantes? Tal ideia desemboca no que podemos chamar de “desumanização” ou “angelismo”. Em outras palavras, essas pessoas podem manter-se castas ou virgens, mas não são puras no pleno sentido da palavra, uma vez anulam a sua sexualidade, dimensão fundamental que nos torna humanos!

Encontramos no Evangelho de São Mateus a passagem das Bem-Aventuranças, onde o evangelista nos  esclarece quanto ao tema da pureza: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8). Na Escritura, o coração representa a sede das decisões humanas. Como o próprio Jesus nos diz: “é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias” (Mt. 15,19). O Catecismo afirma que a expressão “puros de coração” designa os que entregam o coração às exigências da santidade de Deus, especialmente nos três seguintes campos: na caridade, na castidade (ou retidão sexual) e no amor à verdade (cf. CATECISMO § 2518).

Portanto, para nós católicos, a pureza cristã não diz respeito simplesmente às questões de íntimidade, ou seja, não se restringe somente ao âmbito da sexualidade: é algo mais profundo, que começa no coração do ser humano. Pureza não é abstinência e observância, mas plenitude e unicidade de amor. [2] É saber amar o Senhor com um coração indiviso e, por isso, saber dizer não a todo tipo de prazer que nos afaste dele.

O cristão tem seu ponto de equilíbrio no Cristo. Ele é o seu referencial e não os paradigmas que o mundo oferece. Como afirma o Papa Bento:[3] “a pureza do coração acontece no seguir os passos de Cristo, no ser um com ele” (cf. Gl. 2,20). O que nada mais é do que buscar ser um autêntico cristão: “outro cristo” que busca ser luz onde existem trevas (cf. Mt. 5,14).


[1] Raniero CANTALAMESSA. Virgindade, p. 10.

[2] Amedeo CENCINI. Virgindade e celibato hoje- Ed. portuguesa, p.83.

[3] PAPA BENTO XVI. Jesus de Nazaré (o sermão da montanha) p. 95.

 

2º Domingo da Quaresma, Ano A.

Informações básicas:
– A Palavra se manifesta no Deserto Quaresmal. – Oração –  A Palavra purifica o olhar da nossa fé para ver a Glória. – Leituras: Gn 12, 1-4; Sl 32 (33); 2 Tm 1, 8-10; Ev Mt 17, 1-9.

O seu rosto brilhou como o sol.

Acompanhando o percurso litúrgico quaresmal, vimos no domingo passado que Jesus teve de escolher o estilo de sua Missão Messiânica. Escolhendo o estilo da obediência a Deus, o estilo que a Palavra de Deus (as profecias acerca do Messias) havia revelado, com fidelidade filial. Hoje, no episódio da transfiguração são os discípulos que devem escolher seguir o estilo de Jesus.

Após o Anúncio da Paixão (cf. Mt. 16, 21-27), os discípulos se encontram tristes e abatidos. Jesus escolhe três deles (Pedro, Tiago e João) e os conduz a um alto monte e lhes mostra o seu rosto divino. Eles próprios verão o rosto desfigurado de Jesus em outro monte, o Jardim do Getsemani (cf. Mt. 26, 36ss), mas agora o veem transfigurado na glória do Monte (Tabor). Por um instante os discípulos contemplam a natureza divina de Jesus, veem sua glória, a que tinha no Principio, quando estava no seio do Pai (cf. Jo. 1, 1) e que terá de novo, após a Ressurreição. Esta consciência da glória de Cristo deve ajudar os discípulos a aceitarem a dolorosa situação que terão que enfrentar.

trasfigurazione_2“Apareceram-lhes Moisés e Elias”, a Lei e os profetas dão testemunho da glória do Filho de Deus. E diante de tamanha visão, os discípulos ficam estupefatos, a ponto de Pedro querer fixar sua morada ali, naquele lugar. Mas “uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra”. A figura da nuvem na Escritura simboliza presença e proteção divina, como a Shekhinah (em hebraico: שכינה) de Deus que acompanhava o Povo em marcha no deserto (cf. Ex 23, 20-21). E da nuvem fez-se ouvir a voz do Pai, assim como no Batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado”, mas agora com um acréscimo imperativo: “Escutai-O!” (v.5). Isto é, deveis confiar Nele! Mesmo se a proposta Dele não vos parecer boa, confiai!

Se o tempo da Quaresma é ocasião de redescoberta do nosso batismo, da beleza de ser cristão, queremos novamente escolher seguir Jesus, imitando o seu estilo de vida, que gera vida em nós.

Vemos como figura exemplar a vida e a vocação de Abraão, na primeira leitura. No domingo passado, vimos como Adão foi desobediente a Deus. Hoje, temos a obediência de Abraão, que escolhe a promessa de Deus. Ele se confia ao Senhor e parte da sua terra para onde Deus lhe mostrara (cf. Gn. 12,1). Há uma passagem do “errar” de Adão, ao “errar” de Abraão. Este primeiro erra, porque escolhe o pecado. Já Abraão, erra, isto é, se torna errante, nômade, sem moradia em nome da Promessa do Senhor. E por causa da sua fé, todos os povos da terra são abençoados nele (cf. Gn. 12, 3).  O Patriarca Abraão é prefiguração Daquele que deveria vir ao mundo, Jesus Cristo, nosso Salvador.

Em suma, diante do medo ou desânimo nas dificuldades da vida, não desanimemos! Com o salmista no salmo 32, peçamos ao Senhor que envie sobre nós a Sua graça, sem essa, não conseguimos prosseguir no seguimento de Jesus.

Fonte exegética:

  1. Don Claudio Doglio