28° Domingo Tempo Comum, Ano A.

Informações básicas:

– Todos são convidados ao Banquete;

– Oração – Que a graça de Deus nos preceda;

–  Is 25, 6-10; Sl 22; Fl 4, 12-14.19-20; Mt 22, 1-14.

 Convidai para a festa todos os que encontrardes.

Mateus 22,1-14O 28° domingo do tempo comum nos propõe a terceira parábola que Mateus utiliza para representar a rejeição do povo de Israel a missão de Jesus. Nós ouvimos alguns domingos atrás a “parábola dos dois filhos” cujo enfoque era a figura de João Batista; no domingo passado, o ponto principal foi a figura do Filho que vem assassinado pelos vinhateiros homicidas; já a terceira parábola nos apresenta um Convite ao banquete, nos propõe a figura de um rei que prepara a festa de casamento para o seu filho. É clara a figura parabólica que se apresenta: o rei é Deus Pai, o filho é Jesus Cristo e, o “banquete de casamento” é a Festa Messiânica que acompanha o evento da vinda do Messias. Os convidados para o banquete não desejam participar. Além disso, agridem e matam os emissários do convite real. Os tais convidados indignos são severamente punidos pelo rei vendo sua cidade destruída e incendiada. Surge, assim, o drama histórico, pois, certamente o evangelista Mateus faz uma alusão ao ocorrido no ano 70 d.C., quando Jerusalém foi reduzida a ruínas.

O objetivo dessa parábola é ressaltar o drama daqueles que seguem Jesus: os seus enviados, os que vieram antes de Jesus, os profetas, foram rejeitados. Depois, o próprio Jesus foi rejeitado e agora os seguidores de Jesus continuam a ser rejeitados. É uma situação trágica que se repete sempre, em referência a Jesus.

Os primeiros convidados não aceitam o convite, mas, o convite estendido a outros convidados. Ou seja, são todos os povos raças e nações que são convidados a ocupar lugar na mesa do banquete messiânico. Então, a sala do banquete fica repleta de pessoas, as quais tomam parte todo tipo de gente, maus e bons, como ressalta o evangelista. O rei, passando entre os seus convidados encontra um destacado, sem o traje de festa. Curiosamente este estranho é chamado de amigo, mas, não em tom cordial. O equivalente em grego seria mais ou menos: “Ei, você aí! Com que audácia entrou aqui sem o traje de festa?”

Eu faço uma pergunta a todos vocês: o que representa esse traje de festa? Esse simboliza a vida digna de cristão, coerente com o estado de graça, que visa fazer o bem.

 O Santo Padre, o Papa Bento XVI, em sua visita à diocese de Lamezia Terme em 2011 (onde trabalhei por alguns anos da sua vida), comentando esta parábola, recordava São Gregório Magno. Dizendo que o traje de festa é a caridade, ou seja, o amor. E São Gregório acrescenta: “Cada um de vós, portanto, que, na Igreja, tendes fé em Deus, já tomeis parte do banquete nupcial, mas não podeis afirmar ter a treje nupcial se não preservais a graça da Caridade” (Homilia 38, 9: PL 76, 1287). E este traje está interligado simbolicamente por duas varas, uma acima da outra: o amor de Deus e o amor ao próximo (cf. ibid, 10:. PL 76,1288). Todos nós somos convidados a ser comensais do Senhor, a entrar com fé no seu banquete, mas devemos usar e preservar o traje nupcial, a caridade, viver um profundo amor por Deus e pelo próximo.

Lembremos que “traje” nos recorda uma outra palavra similar: “hábito”. Este representa também maneira de se comportar, estilo de vida. Mateus nos diz com a parábola de hoje, que não basta apenas entrar na Igreja, mas, é preciso agir como um filho da Igreja, um convidado para ceia nupcial do cordeiro, mudando nossa maneira de agir, o nosso modo de pensar, nos conformando com o Amor-Caridade que vem de Deus. Caso contrário, o destino desse homem perverso da parábola será o nosso: ter amarrado os pés e mãos e ser lançado fora, na escuridão.

A primeira leitura de hoje é extraída do trecho do profeta Isaías.  É também um trecho de gênero apocalíptico, no qual Isaías compara o fim dos tempos há um banquete de ricas iguarias: o Senhor Deus eliminará para sempre a morte enxugará as lágrimas e nos dará para sempre a vida.  A este banquete são convidadas todas as nações, o mesmo que nos fala Jesus em sua parábola, mas, muitos são convidados poucos são escolhidos.

O salmo que hoje nos é proposto é o 22, o Salmo do Pastor. Foi escolhido para o dia de hoje de modo particular pela sua segunda parte, onde o Pastor se torna um “anfitrião” de um banquete. Prepara uma mesa diante a um refugiado que busca fugir do seu inimigo. É como se o salmista nos dissesse: me acolheis em vossa casa preparais à minha frente uma mesa bem à vista do inimigo e com óleo ungis minha cabeça e fazei o meu cálice transbordar. Por isso, decidi permanecer em vossa casa onde sou feliz para sempre. É o que o Senhor tem destinado para nós, seus convidados.

Na segunda leitura, temos a continuação da carta de São Paulo aos Filipenses. Paulo fala de sua atitude de “homem forte e virtuoso”, capaz de enfrentar toda dificuldade. Por isso, disse: tudo posso naquele que me dá força. É uma expressão forte, pois a força do Cristão vem do próprio Cristo. E se ele me dá força sou capaz de fazer tudo posso enfrentar toda a dificuldade: posso viver na pobreza e na riqueza na fome e na abundância. Quem aceita o convite e veste o traje de festa, assume uma força surpreendente e enfrenta as dificuldades da vida com a serenidade e a coragem de São Paulo.

 

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27º Domingo do Tempo Comum, ano A.

Informações básicas:
– A vinha do Senhor;
 – Oração – Deus perdoa o que nos pesa na consciência;
– Is 5, 1-7; Sl 79; Fp 4, 6-9; Mt 21, 33-43.

Arrendou a vinha a outros vinhateiros.

H27-domingo-comumoje o evangelho que nos é proposto é a última das três “parábolas da Vinha” que encontramos no evangelho de São Mateus. Esta última parábola também é encontrada nos outros sinóticos.  Mais uma vez, Jesus conta uma parábola aos sumos sacerdotes e aos anciãos do Povo (ricos latifundiários). Na estória, encontramos alguns agricultores que se rebelaram contra o dono da Vinha. Eles não pagam o arrendamento, isto é, o aluguel das terras. Então, agridem os empregados enviados para cobrar os frutos, até matam um deles a pedradas. Chegando ao cúmulo de matar também o filho do dono da Vinha! Fato como este, encontrar agricultores explorados e revoltosos não era incomum em Israel. Os ricos (como os destinatários da parábola) eram donos de vinhedos arrendados.

Jesus sendo, um mestre quem sua pregação e ensinamentos defendia os pobres (como os agricultores explorados por ricos latifundiários), os sumos sacerdotes e os anciãos do Povo pensavam que era esse o objetivo da parábola. Ao fim da parábola, eles são questionados: “o que o dono da Vinha fará com esses vinhateiros?”

Como a resposta dura buscavam agredir Jesus, mas, acabam por impor sobre si mesmos a própria condenação.

E utilizando a própria Escritura, Jesus lhes explica que não são eles “o dono da Vinha”, mas, sim, os vinhateiros Rebeldes. São os que administram a vinha, porém, não damos frutos ao dono, ou seja, a Deus. Sendo eles os perversos que merecem morte violenta, contudo, Deus não agir assim. Na mesma parábola Jesus anuncia o seu próprio fim. Poucas semanas após este episódio, Jesus será entregue à morte e os sumos sacerdotes e chefes do Povo perderão o controle da Vinha, isto é, do Reino de Deus. Nós, como Igreja, nos foi entregue o controle da Vinha (do Reino de Deus). E o Senhor espera que nós produzimos frutos e lhe entreguemos esses mesmos frutos a seu tempo. Os frutos que Deus espera que produzamos são frutos de Justiça e frutos de Amor-Caridade aos irmãos.

Na primeira leitura de hoje, extraída do livro do profeta Isaías, o Profeta canta o cântico da Vinha de um amigo. Na linguagem do antigo Israel “plantar uma vinha” significa “constituir família”; “trabalhar pela vinha” é o mesmo que “cortejar” ou “paquerar” uma pretendente. E o amigo não obtém resultado, senão frutos selvagens, uvas acerbas. “A vinha do senhor dos exércitos é a casa de Israel”. Deus esperava a justiça e veio somente injustiça, ele esperava obras de bondade e veio apenas iniquidade. Já 700 Anos a.C., o Profeta censurava o povo pelo mau comportamento diante de Deus. Também não salmo de hoje o Salmo 79 encontramos a mesma afirmação: “a vinha do senhor é a casa de Israel”. O salmista pede a Deus que intervenha, vindo em socorro da sua vinha abandonada negligenciada por maus agricultores.

E concluímos com a segunda leitura. Onde temos a continuação da carta aos Filipenses. São Paulo nos dá algumas indicações morais acerca da vida em comunidade, e convida a todos a aderirem ao Senhor de modo coerente e pleno. Mais do que “evitar o mal”, somos convidados a “praticar o bem”. Assim, em suas palavras: “ocupai-vos de tudo que é verdadeiro, respeitável, justo puro, amável, honroso, tudo que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor”. Os frutos que Deus espera de nós são esses. No último dia, nós seremos julgados não apenas pelo mal praticado. Mas pelo bem que nós deixamos de fazer. A isto chamamos de “pecado por omissão”. Deus nos chama hoje a lutarmos pelo seu Reino de amor justiça e paz que começa aqui entre nós.

 

 

 

26º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Informações básicas:
– Ser cristão é agir bem;
– Oração – Deus mostra seu poder no amor e na misericórdia;
– Ez 18, 25-28; Sl 24; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32.

Jesus-no-TemploDando continuidade a leitura do Evangelho de São Mateus, no domingo passado chegamos a uma pequena série de parábolas que descrevem a reação do povo de Israel à pregação de Jesus, sobre o Reino de Deus. A parábola de hoje é encontrada somente no Evangelho de São Mateus, “a parábola dos dois filhos”,  que são diferentes entre si, em suas palavras e em suas atitudes. Ao centro da parábola encontramos o pai e a vinha. O Pai pede aos filhos para irem trabalhar em sua vinha. O primeiro, diz “não”, mas, depois “muda de opinião” (se converte) e vai trabalhar na vinha. O outro responde “sim”, mas, o fato é que não cumpre nada daquilo que o pai lhe pede.  Logo, o tema proposto por Jesus é a conversão. Esta parábola é contada propositalmente para os sacerdotes e os chefes do Povo para mostrar uma atitude de mudança.  Com dureza, Jesus afirma: “os publicanos e as prostitutas vos precedem no reino de Deus”. Dizendo as autoridades que os publicanos, isto é, os cobradores de impostos, e as prostitutas lhes precedem ∕ passam-lhes a frente. Mas isso não porque sejam simplesmente pecadores, mas porque se deixaram converter o coração.

A referência disso é a figura de João Batista.  Pois antes de Jesus, veio João que anunciou o Reino de Deus e o chamado à conversão. E, a ouvi-lo, os publicanos e as prostitutas acolheram a palavra de João e buscaram a conversão, aceitando o Reino de Deus. Mas, os chefes do povo, ao contrário, nem sequer se arrependeram para poder acreditar nele.  O ponto delicado é o arrependimento, ou seja, a dor sentida pelo pecado cometido. Se não se reconhece que errou não se pode sentir a dor do arrependimento pelo erro cometido. Não basta dizer “sim” com a boca, com belos discursos religiosos se depois com atitudes e obras a resposta for negativa ao Reino de Deus.

            A primeira leitura de hoje, extraída do livro do profeta Ezequiel, ressalta que cada um é responsável pelas escolhas que faz. Também aqui encontramos como ponto central o arrependimento, que para Ezequiel, é um modo decisivo para acolher a vida.  A conversão ou mudança é o ponto delicado sobre qual a palavra de Deus nos convida a refletir. Somos tocados no íntimo pela palavra de Deus e ela nos conduz a uma mudança. Se a palavra que nós ouvimos não se torna vida, não nos faz mudar realmente a nossa vida para melhor, com o tempo nós pioramos.  Somos como chefes do povo de Israel que afirmavam que “a conduta do senhor não é correta”.

Com o Salmo 24, nós queremos reconhecer diante de Deus as nossas culpas e pedir compaixão, Misericórdia de nossos pecados. Mas para poder nos arrepender é preciso reconhecer o erro cometido. E com as palavras do Salmo, pedimos ao Senhor que nos faça “conhecer a sua estrada que sua verdade nos oriente e nos conduza”. Portanto, se me deixo instruir pelo Senhor, a sua Palavra põe luz no meu comportamento e atitudes que são negativos e errôneos e,  encontro a conversão.

            Na segunda leitura temos um trecho da carta de São Paulo aos Filipenses. São Paulo pede a comunidade que abandone a vanglória e atitudes de soberba no relacionamento humano.  Que não busquem o interesse próprio, mas, estejam atentos às necessidades dos outros. No fim, sintetiza tudo em uma frase maravilhosa: tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Esta é a atitude do verdadeiro cristão: ter “o mesmo sentimento de Cristo Jesus” nosso Senhor. O sentimento de Jesus expressa o seu modo de pensar as suas atitudes mais profundas e concretas. É o filho obediente que diz “sim” com os lábios, mas também faz aquilo que o Pai quer que seja feito. E São Paulo conclui trecho com um antigo hino cristológico, onde exalta o senhorio de Jesus: Jesus Cristo é o Senhor!

O que é PUREZA CRISTÃ?

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).

Santa Maria Goretti (ícone moderno)Todos os ano no dia 06 de julho, a Igreja nos convida a refletir sobre a figura de uma frágil, e ao mesmo tempo forte menina, que é um exemplo de pureza cristã em nossos dias: Maria Goretti. Era uma mocinha pobre que não tinha uma beleza extraordinária, mas em seus olhos era perceptível o ideal de pureza cristã que abraçara.

Evidentemente a sociedade contemporânea é muito distinta da que viveu nossa jovem santa. Hoje em dia houve uma grande mudança na concepção dos valores que regem a sociedade. E, infelizmente, no que tange à questão da pureza, não é diferente.

O valor da pureza está hoje em dia desvalorizado e, sobretudo, no que diz respeito à castidade.  Uma mulher afirmar que é virgem é algo antiquado, fora de moda; e para um rapaz dizer isso é até humilhante entre seus iguais. Ao mesmo tempo em que, ainda hoje, encontramos uma base daquilo que outrora fora a concepção comum a todos, como por exemplo, ao falarmos do melhor azeite de oliva, nos remetemos ao melhor, ao “extra-virgem”; a melhor lã é a “virgem”(dentre outros exemplos). Com isso, exaltamos, mesmo que inconscientemente, aquilo que é “mais puro” como um valor.[1]

É comum nos dias de hoje encontrarmos jovens preocupados com sua saúde, com o cuidado físico, o que é muito importante. Nosso maior patrimônio é o nosso corpo, que é dom e templo do Espírito de Deus (cf. I Cor. 3,16). É preciso ressaltar, porém, que no meio de tanta boa intenção e zelo pelo corpo, existem muitos jovens que visam apenas fins estéticos e superficiais, fazendo do corpo (que é um meio) um fim em si mesmo. Esse tipo de atitude pode levá-los a cair numa vaidade exacerbada, num narcisismo doentio e naquilo que chamamos de hedonismo, ou seja, tomar o prazer como bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral. De fato, existem muitos que se deixam levar pelos “modismos” que todos os dias são lançados através da mídia.

Quando nos referimos à sexualidade a situação fica ainda mais complexa. Para se tornar atraente, vale quase tudo: desde intermináveis sessões de musculação, a um número sem fim de horas dedicadas a salões de beleza e clínicas de estética. Percebemos também que as relações se tornam cada vez mais efêmeras e superficiais. O hedonismo faz com que usemos o (a) outro (a) como objeto de prazer, confundindo amor com concupiscência.

Essa mentalidade hedonista acabou despertando uma reação que vem na contramão do comportamento social que ela produz. Surgiram, por exemplo, nos EUA, os ditos “Movimentos de Pureza”. O primeiro deles surgiu faz pouco mais de uma década. Atualmente existem dois movimentos internacionais reconhecidos: “Silver Ring Thing” e “One Love One Wathing”. Os dois grupos ganharam notoriedade pela identificação do uso de um anel de prata, popularmente conhecido como anel de pureza, usado por aqueles que assumem o compromisso de se guardarem para o casamento. No Brasil, existem alguns movimentos (ligados a algumas igrejas protestantes-evangélicas) que se mobilizaram com vários nomes: Anel de Pureza, Anel de Castidade, Aliança de Compromisso, Anel de Prata, Aliança de Pureza, entre outros.

Infelizmente os jovens que aderem a esses movimentos caem num extremismo, chegando ao cúmulo de afirmar que nem sequer beijam a pessoa amada, para manterem a sua pureza preservada.  Eu lhes pergunto: mas que pureza é essa que me priva de me relacionar com meus semelhantes? Tal ideia desemboca no que podemos chamar de “desumanização” ou “angelismo”. Em outras palavras, essas pessoas podem manter-se castas ou virgens, mas não são puras no pleno sentido da palavra, uma vez anulam a sua sexualidade, dimensão fundamental que nos torna humanos!

Encontramos no Evangelho de São Mateus a passagem das Bem-Aventuranças, onde o evangelista nos  esclarece quanto ao tema da pureza: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8). Na Escritura, o coração representa a sede das decisões humanas. Como o próprio Jesus nos diz: “é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias” (Mt. 15,19). O Catecismo afirma que a expressão “puros de coração” designa os que entregam o coração às exigências da santidade de Deus, especialmente nos três seguintes campos: na caridade, na castidade (ou retidão sexual) e no amor à verdade (cf. CATECISMO § 2518).

Portanto, para nós católicos, a pureza cristã não diz respeito simplesmente às questões de íntimidade, ou seja, não se restringe somente ao âmbito da sexualidade: é algo mais profundo, que começa no coração do ser humano. Pureza não é abstinência e observância, mas plenitude e unicidade de amor. [2] É saber amar o Senhor com um coração indiviso e, por isso, saber dizer não a todo tipo de prazer que nos afaste dele.

O cristão tem seu ponto de equilíbrio no Cristo. Ele é o seu referencial e não os paradigmas que o mundo oferece. Como afirma o Papa Bento:[3] “a pureza do coração acontece no seguir os passos de Cristo, no ser um com ele” (cf. Gl. 2,20). O que nada mais é do que buscar ser um autêntico cristão: “outro cristo” que busca ser luz onde existem trevas (cf. Mt. 5,14).


[1] Raniero CANTALAMESSA. Virgindade, p. 10.

[2] Amedeo CENCINI. Virgindade e celibato hoje- Ed. portuguesa, p.83.

[3] PAPA BENTO XVI. Jesus de Nazaré (o sermão da montanha) p. 95.

 

2º Domingo da Quaresma, Ano A.

Informações básicas:
– A Palavra se manifesta no Deserto Quaresmal. – Oração –  A Palavra purifica o olhar da nossa fé para ver a Glória. – Leituras: Gn 12, 1-4; Sl 32 (33); 2 Tm 1, 8-10; Ev Mt 17, 1-9.

O seu rosto brilhou como o sol.

Acompanhando o percurso litúrgico quaresmal, vimos no domingo passado que Jesus teve de escolher o estilo de sua Missão Messiânica. Escolhendo o estilo da obediência a Deus, o estilo que a Palavra de Deus (as profecias acerca do Messias) havia revelado, com fidelidade filial. Hoje, no episódio da transfiguração são os discípulos que devem escolher seguir o estilo de Jesus.

Após o Anúncio da Paixão (cf. Mt. 16, 21-27), os discípulos se encontram tristes e abatidos. Jesus escolhe três deles (Pedro, Tiago e João) e os conduz a um alto monte e lhes mostra o seu rosto divino. Eles próprios verão o rosto desfigurado de Jesus em outro monte, o Jardim do Getsemani (cf. Mt. 26, 36ss), mas agora o veem transfigurado na glória do Monte (Tabor). Por um instante os discípulos contemplam a natureza divina de Jesus, veem sua glória, a que tinha no Principio, quando estava no seio do Pai (cf. Jo. 1, 1) e que terá de novo, após a Ressurreição. Esta consciência da glória de Cristo deve ajudar os discípulos a aceitarem a dolorosa situação que terão que enfrentar.

trasfigurazione_2“Apareceram-lhes Moisés e Elias”, a Lei e os profetas dão testemunho da glória do Filho de Deus. E diante de tamanha visão, os discípulos ficam estupefatos, a ponto de Pedro querer fixar sua morada ali, naquele lugar. Mas “uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra”. A figura da nuvem na Escritura simboliza presença e proteção divina, como a Shekhinah (em hebraico: שכינה) de Deus que acompanhava o Povo em marcha no deserto (cf. Ex 23, 20-21). E da nuvem fez-se ouvir a voz do Pai, assim como no Batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado”, mas agora com um acréscimo imperativo: “Escutai-O!” (v.5). Isto é, deveis confiar Nele! Mesmo se a proposta Dele não vos parecer boa, confiai!

Se o tempo da Quaresma é ocasião de redescoberta do nosso batismo, da beleza de ser cristão, queremos novamente escolher seguir Jesus, imitando o seu estilo de vida, que gera vida em nós.

Vemos como figura exemplar a vida e a vocação de Abraão, na primeira leitura. No domingo passado, vimos como Adão foi desobediente a Deus. Hoje, temos a obediência de Abraão, que escolhe a promessa de Deus. Ele se confia ao Senhor e parte da sua terra para onde Deus lhe mostrara (cf. Gn. 12,1). Há uma passagem do “errar” de Adão, ao “errar” de Abraão. Este primeiro erra, porque escolhe o pecado. Já Abraão, erra, isto é, se torna errante, nômade, sem moradia em nome da Promessa do Senhor. E por causa da sua fé, todos os povos da terra são abençoados nele (cf. Gn. 12, 3).  O Patriarca Abraão é prefiguração Daquele que deveria vir ao mundo, Jesus Cristo, nosso Salvador.

Em suma, diante do medo ou desânimo nas dificuldades da vida, não desanimemos! Com o salmista no salmo 32, peçamos ao Senhor que envie sobre nós a Sua graça, sem essa, não conseguimos prosseguir no seguimento de Jesus.

Fonte exegética:

  1. Don Claudio Doglio

1º Domingo da Quaresma, Ano A.

Informações básicas:
– O Espírito nos leva ao Deserto Quaresmal.
– Oração –  Conhecer Jesus Cristo e responder ao seu amor por uma vida santa.- Leituras: Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 50,3-4.5-6a.12-13.14.17 (R.Cf.3a); Rm 5,12-19; Mt 4,1-11.

O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

A cada ano, o Caminho quaresmal nos convida a tomar consciência do nosso Batismo. Na Antiguidade, os Padres da Igreja organizavam este tempo de 40 dias para a preparação dos Catecúmenos, em vista do Batismo. Esses são os que fazem o Caminho Catecumenal, ouvem a Palavra de Deus e aderiram ao Evangelho de Cristo. E na noite de Páscoa são feitos cristãos, através do Batismo.

É na Quaresma que todos os batizados são chamados a valorizar a Graça recebida: somos batizados, somos imersos em Cristo! As leituras propostas para a Quaresma nos auxiliam a redescobrir a beleza de sermos cristãos, batizados na morte e ressurreição de Jesus, isto é, vivemos plenamente como filhos e filhas de Deus em Jesus.

as-tentacoes-no-desertoO primeiro domingo é dedicado ao tema da provação ou tentação. Encontramos Jesus logo após o seu Batismo, e no início de sua vida pública é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto. Repare que não é o Diabo que conduz Jesus ao deserto, mas o Espírito (cf. Mt. 4, 1). Foi o Pai quem permitiu a  provação do Seu Filho. Também nós, como filhos de Deus, somos conduzidos a um deserto. Mas olhando a vida de nosso Salvador, Ele que tem a plenitude no Espírito Santo (cf. Mt. 3,16) possui a Força necessária para vencer qualquer provação. Cada um de nós deve ter consciência de que possuímos, assim como Jesus, a Força de Deus em nós. Pois somos habitados por Deus ( cf.I Cor. 6, 19).

Diante disso, poderíamos nos perguntar: será que o deserto é necessário? Sim, o deserto é necessário. Se todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus (Rm. 8,28), ir para o deserto é algo bom, é o lugar de encontro com Deus. Jesus foi para lá antes de iniciar sua vida pública. Neste tempo, Ele ficou em oração e comunhão com o Pai, preparando-se para a grande obra que viria a ser feita. Lembremos, portanto, de consultar o Pai antes de qualquer empreitada, seja ela grande ou pequena. O Espírito Santo impeliu Jesus a um lugar onde ele pudesse ficar em contato maior com Deus Pai. Assim Ele impelirá cada um dos seus filhos, os quais são habitados por Ele, a buscá-lo cada vez mais. E às vezes isto significa que o Pai poderá colocá-lo em situações difíceis. Mas junto com a provação, ele dá também os meios de suportá-la e de sair dela (cf.1 Cor. 10,13).

Em sua provação, Jesus representa toda a Humanidade. Pois consistem nas mesmas tentações que passamos ou passaremos durante a nossa vida. São elas:

  • O PRAZER: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”.
  •  O PODER/DOMÍNIO:  “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.
  • E O TER: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”.

Percebemos grande astúcia do Diabo, quando utiliza a própria Escritura como instrumento de tentação. E Jesus, por sua vez, rebate com uma frase do Deuteronômio – o Livro da Lei/Aliança de Deus, cada uma das tentações. Ele as venceu não se valendo de sua condição divina, mas apenas por meio da sua entrega a Deus e, se apegando a oração e o jejum. São simples armas que o Senhor quer que utilizemos neste tempo forte de Conversão que chamamos de QUARESMA.

Precisamos trazer para a nossa vida a autêntica perspectiva cristã, não nos apegando a “facilidades diabólicas”. Somente ouvintes ativos da Palavra de Deus conseguem combater essa mentalidade mundana que prega facilidades. Mas compreendendo que o Projeto de Deus para a nossa Salvação exige fé no Senhor que nos chama e esforço pessoal. Pois o Reino de Deus exige força para lutar por ele (cf. Mt. 11, 12).

Para Refletir…

Tu poderias… “Se és Filho de Deus…” Não nos acontece, às vezes, estar também do lado do tentador? “Se és Filho de Deus…” Tu poderias suprimir as fomes, as guerras, a miséria… Tu poderias tornar a tua Igreja próspera e célebre aos olhos das nações… Tu poderias… “Vai-te embora, Satanás!”

Fontes exegéticas:

  1. Don Claudio Doglio
  2. Portal Dehonianos de Portugal

 

 

 

Quarta-feira de Cinzas 2017.

Informações básicas:
– Jejum, Oração e Esmola autênticos.
– Oração –  penitência que nos fortalece contra o mal.
– Leituras: Jl 2, 12-18; Sl 50; 2 Cor 5, 20-6,2; Mt 6, 1-6.16-18.

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles.

papa-recebendo-as-cinzas
Papa Francisco recebendo a imposição das cinzas. 

Hoje iniciamos a Quaresma, e a imposição da cinza —que devemos receber— é acompanhada pela fórmula: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc. 1, 15). Antigamente este rito era acompanhado pelo versículo: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn. 3, 19). Recordando nossa mortalidade,  e sempre um convite a contemplar de uma maneira diferente a nossa vida.

 

Em um contexto de instrução aos seus discípulos, Jesus os adverte acerca da “prática da justiça”.  Justiça esta que consiste em viver conforme aos princípios evangélicos, sem esquecer que Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus (Mt. 5,20).  Estes, usavam da religião e de seus preceitos para se autopromoverem socialmente. Quando se vive uma religião de aparências, cai-se na hipocrisia. O fato de sermos vistos, admirados, elogiados, afagados, constitui-se uma necessidade da nossa carne fraca, por isso, se não estivermos atentos (as), ficaremos esperando elogios, aplausos e nos entristeceremos quando não formos aclamados por causa das nossas boas ações. Porém quando nos deixamos recompensar somente por Deus que está escondido no profundo do nosso ser, então as nossas obras, mesmo que não sejam vistas pelos homens, têm um perfume agradável a Ele e receberemos a Sua recompensa. Fazer para aparecer é não fazer por amor. Deus vê o coração e receberemos a recompensa se agirmos por amor a Ele.

Hoje, nosso Mestre Jesus nos apresenta em seu Evangelho três armas poderosas e eficazes que nos ajudarão em nossa luta pela conversão. A saber: a esmola (caridade), a oração e o jejum.

A caridade é um exercício no relacionamento com o outro. Jesus nos fala no evangelho em dar esmola (do grego eleêmosyne, “piedade, compaixão”) que poderíamos traduzir como alguma obra concreta em favor do irmão. Pois o Amor-Caridade é fazer o bem ao próximo, é querer o bem do outro, como se quer o próprio bem. Nossa fé cristã não é feita apenas de belos ensinamentos e boas intenções. Em nossa vida cotidiana, temos sempre oportunidade de sermos caridosos para com o próximo. Isto não só a nível material, mas também na maneira com que tratamos as pessoas.

O ato de orar é exercitar-se na disciplina do relacionamento com Deus. Jesus destaca o valor da oração pessoal: quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto (Mt. 6, 6a). É por meio da oração que mantemos acesa a chama da fé e do amor em nossos corações, é onde alimentamos nossa intimidade com o Senhor que nos convida a sermos melhores. No corre-corre da vida, frequentemente deixamos de lado nosso momento de oração pessoal diário. E, quando percebemos, já estamos afastados do Senhor e desencorajados diante das dificuldades da vida. Por isso, é preciso encontrar uma disciplina: um horário, um lugar fixo… Com isso, aprenderemos a nos refugiar em Deus.

O Jejum é um exercício que ajuda no relacionamento consigo mesmo. Fortalece a vontade na luta contra os desejos contrários à vida. O jejum se refere sempre a uma disciplina ligada à alimentação. Porém, não se trata de dieta alimentar. Mas um modo de ter autodomínio para que se possa dar um novo sentido ao prazer. E junto com o jejum, temos a abstinência. Conhecemos muito bem a abstinência de carne, mas podem-se praticar muitas outras formas que possam ajudar na disciplina pessoal da vida.  Entretanto, precisamos estar atentos para não cair na “vaidade do jejum”. Há pessoas que se apegam ao jejum como um capricho pessoal, uma vaidade. Fazendo dele um fim e não um meio. Todo jejum deve ser iniciado com espírito de oração, para não ser desviado de seu real sentido.

Esta é a perspectiva da penitência e conversão que Deus pedia ao Povo de Israel, por meio do profeta Joel: voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes (Jl. 2, 12-13). Diante do luto ou das calamidades, era costume o Povo de Israel rasgar suas vestes. E perante a iminente invasão dos povos inimigos, o Senhor pede mais do povo. Somente quando o homem rasga o coração é que ocorre a verdadeira conversão. E podemos reconhecer e clamar com o salmista no Salmo 50: Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos.

A Quaresma é o convite que cada ano nos faz a Igreja a um aprofundamento interior, a uma conversão exigente, como afirma s. Paulo: É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação (2Cor 6,2).  Para que dando os frutos pertencentes que o Senhor espera de nós, vivamos com a máxima plenitude de alegria e o gozo espiritual da Páscoa.